segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Fragmentos do desejo.
Angelo na sociedade. Angel no íntimo. Desde pequeno a sensação de que não nasceu no corpo desejado. Desde pequeno a imposição feita pelo seu pai aos rituais de silêncio constrangedor. Desde pequeno a submissão que se transforma e encontra forma em um grito ensurdecedor que o silêncio é capaz de traduzir. Orlando, um amor que o mostra que se apaixonou pela sua voz, não importando se descobrisse depois que se tratava de uma voz feminina em um corpo masculino. Orlando é o cego que enxerga além das imagens, além dos sons, além das convenções invisíveis. Olga, a governanta submissa às situações que o pai de Angelo constrói. Olga lembra a sociedade, tão obediente às regras que tem como princípio básico a cegueira opcional.
Uma hora e meia de peça. Nenhum diálogo. Noventa minutos de surpresas. Cinco mil e quatrocentos segundos de emoções. Fragmentos de desejo, espanto, de graça, de delicadeza, de fortaleza.
O espetáculo demonstra de uma maneira impactante a riqueza que há no expressar sensações sem que utilizemos o meio mais acessível, o das palavras. A abordagem ao desejo, à formação da identidade, ao preconceito, ao lúdico é feita sem que sintamos necessidade de explicação. Desde o princípio recebemos um convite para mergulhar em um oceano de sensações embalado por uma escolha musical extremamente pertinente a cada cena.
A sintonia corporal dos atores transforma a gestualidade individual em uma dança em que a prioridade é passar mensagens por meio de uma união sólida de passos e gestos que impressiona pela interação feita entre os elementos da mesma, que faz com que se sobressaia o conjunto dos atores. Belos em sua individualidade. Esplendidos em sua união.
O espetáculo feito pela Companhia franco-brasileira Dos à Deux está em cartaz no Centro Cultural do Banco do Brasil (RJ) até o dia 24 de outubro de 2010, de quarta a domingo às 19h. Ingresso: 10 reais (inteira) 5 reais (meia)
Nós nos emocionamos. Nós nos surpreendemos. Nós indicamos.
Texto por Nathália
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